Uma discussão sobre o equilíbrio entre Medicina orientada por Dados/AI e diagnósticos sob o olhar e exame clínico.

Esta pseudo-dicotomia não surgiu apenas agora, após o advento da Inteligência Artificial e Machine Learning de forma escalável e produtiva. A muito tempo se observa profissionais da saúde escolhendo entre um ou outro. Ou seja: profissionais que negam a aplicabilidade de tecnologia no diagnóstico ou tratamento orientado por dados, ao passo que outros simplesmente abdicam da necessidade de raciocinar clinicamente sobre determinado caso, abrindo mão de todos seus anos de experiência prática e horas de estudo e observação da natureza humana, tornando-se anuente ao que uma máquina lhes reportar.

Quero trazer aqui, uma reflexão sobre este tema, tomando base o fantástico livro “Deep Medicine” do professor Erick Topol, que aborda este e outros assuntos que terei grande prazer em discutir em outras oportunidades.

“A clínica é soberana”

Certamente essa frase já foi dita e ouvida por todos os profissionais da saúde. Ela refere-se ao exame clínico sobrepor-se aos exames laboratoriais e de imagem. Isto é, mesmo que um indivíduo apresente resultados considerados alterados em exames técnicos, a avaliação clínica, ao indicar sinais estáveis, deverá ser levada em consideração no momento da decisão diagnóstica. O mesmo vale para a situação oposta: quando exames se apresentam dentro da normalidade, mas sinais e sintomas clínicos mostram alterações.

Este momento não deve trazer ao profissional a necessidade de decisão sob uma simples escolha binária entre exames ou avaliação clínica, mas sim a prudência sobre os próximos passos, entendendo talvez, a necessidade de um acompanhamento mais detalhado e personalizado.

O profissional da saúde possui uma habilidade que talvez se destaque em relação a profissionais de outras áreas, a intuição. A intuição clínica sempre foi uma ferramenta usada na prática clínica, e grandes profissionais sempre se destacaram por essa mistura indissolúvel de expertise, conhecimento e intuição. Mesmo assim, acredito que por muitas vezes, boas técnicas de diagnóstico pelos avanços tecnológicos poderiam ter colaborado com a atuação desses profissionais.

A complexidade humana nunca ainda foi mapeada em sua completude

A tecnologia permitiu o uso de técnicas sofisticadas de exames de imagem, diagnósticos orientados por IA e testes diversos. Essas ferramentas devem ser usadas como um grande auxiliar da conclusão clínica, mas não somente como a definição absoluta do caso. Algoritmos, prompts, RAG e outras inteligências de máquina possuem de certa forma critérios absolutos sobre determinado comportamento ou resultado, o que nem sempre irá contemplar todas as nuances da fisiologia humana de forma holística.

O uso de IA em diagnósticos de exames de imagens tem resultados significativos, práticas de BigData proporcionam estudos sobre bases de conhecimento maiores, promovendo maior segurança estatística em estudos científicos, modelos de Machine Learning proporcionam maior precisão em testes, além disso, essas tecnologias devem ser usadas também em outras frentes da área da saúde, além do tratamento direto ao paciente: casos de ML para otimização de supply chain de material hospitalar, IA Generativa para triagem e atendimentos em processos de convênios e diversas outras possibilidades.

Todas essas soluções mencionadas possuem o mesmo combustível, Dados. Não atoa escolhi esta figura de linguagem para me referir a Dados. Assim como “A clínica é soberana” para os profissionais da saúde, para os profissionais de Tecnologia existe a frase “Data is the new oil” dita por Clive Humby em 2006. Na ocasião, ele se referia aos grande poder dos dados, uma vez que fossem refinados. Dito isto, permita-me analisar o processo químico ao qual o termo “combustível” esta inserido, a combustão.

Combustão basicamente uma reação química de oxidação rápida, liberando energia em forma de calor e, muitas vezes, luz. Para o sucesso desta reação conhecida como triângulo do fogo, depende essencialmente de 3 elementos: Combustível, comburente e acionador. Combustível é a matéria-prima inflamável, comburente é o elemento reagente, conecta o combustível à queima. Já o terceiro, o acionador, é a faísca, o start do processo.

Trazendo para o nosso contexto, o processo de combustão é a geração valor na ponta final, o paciente. Atualmente temos um ambiente extremamente favorável para isso, o combustível (Dados), esses dados vem sendo usados para a criação de soluções focadas no desenvolvimento de tratamentos e diagnósticos em saúde, este é o comburente; já o terceiro, a faísca, o start do processo, nada mais deve ser que a Cultura, que engloba valores, crenças, hábitos, processos, práticas e modos de ver o mundo que influenciam a forma como pacientes, profissionais e instituições lidam com saúde, doença e tratamentos.

“Cultura é um conjunto de diretrizes (explícitas e implícitas) que os indivíduos herdam como membros de uma sociedade específica…” (Helman, 2007).

A inserção das soluções de tecnologia e inovações na cultura da Saúde necessariamente passa pelo entendimento do momento, capacidades e limitações das soluções que vem sendo criadas, trazendo assim, maior confiança dos profissionais da saúde sobre as ferramentas existentes, e ao mesmo tempo, o entendimento profundo das demandas, rotinas, dores e necessidades deste setor por parte dos profissionais de tecnologia. Este tipo de relação poderá impactar diretamente em como os atendimentos, avaliações, diagnósticos e processos industriais e hospitalares serão feitos, com extremo potencial de avanço em qualidade, resultados e humanização para os pacientes, tornando toda a cadeia de serviços de saúde cada vez mais personalizada e específica para cada indivíduo.